28 de jan. de 2010

Os monges Shaolin também dançam


Kung fu no Centro Cultural de Belém? que aconteceu aos concertos de música clássica e ao teatro?
Calma. Este kung fu não é só kung fu, também é dança. Ainda por cima é uma proposta de um coreógrafo conceituado, que já esteve no CCB, o belga-marroquino Sidi Larbi Cherkaoui (n. 1976), que há uns anos trouxe "Zero Degrees". O que fez desta vez foi convidar 17 monges Shaolin para um espectáculo, a que chamou "Sutra", onde mostra a técnica mas também a espiritualidade destes guerreiros, combinando-a com música original tocada ao vivo.

Disse Shaolin? Os verdadeiros? Como é que isso aconteceu?
Sim, os verdadeiros, os que vivem no Templo Shaolin, um lugar sagrado fundado há milhares de anos numa região próxima de Dengfeng, na China, e que é considerado o principal templo da doutrina budista. Sidi Larbi foi lá parar em 2006, quando um amigo lhe sugeriu um retiro no local. Embora não seja budista, há muitos anos que o coreógrafo se interessa por este tipo de filosofia e pela arte marcial em que os Shaolin são especialistas, o kung fu.



De onde vem o interesse?
A filosofia budista vem da identificação. Cherkaoui não fuma nem bebe, é vegetariano desde os 15 anos e em alguns dos seus trabalhos, como "Foi" e "Myth", tem trabalhado questões como o divino e a busca da perfeição. Já o kung fu é uma paixão de criança e começou nem mais nem menos que por causa de Bruce Lee e dos filmes que o actor de Hong Kong protagonizou.

Então ele foi para o templo para fazer um espectáculo?
Inicialmente, não. Mas com o tempo e a interacção com os monges, sobretudo com os mais novos, essa ideia surgiu e foi autorizada. Entre muitas outras coisas, o coreógrafo ficou fascinado com a disciplina e a forma como os Shaolin se movimentam. Tão fascinado que defende, em "Sutra", que as artes marciais também são uma forma de dança, permitindo aos monges que actuam no espectáculo, e que têm idades entre os 12 e os 26 anos, fazer tudo o que sabem fazer de melhor: manejarem espadas, fazerem mortais e darem pontapés e socos no ar, como se estivessem a combater com um adversário.

Que significa o título "Sutra"?
Tem a ver com o carácter filosófico do espectáculo. "Sutra" é uma palavra que deriva de "sutta", em pali, e que designa os sermões de Buda. No hinduísmo, por sua vez, os "sutras" indicam linhas de orientação para uma boa filosofia de vida.

E qual é a história do espectáculo?
De certa forma é a história do que o próprio Larbi encontrou no templo, isto é, a história de um encontro entre duas culturas diferentes e de como vão aprender uma com a outra. Ao lado dos monges guerreiros está um bailarino - que durante muito tempo foi o próprio Cherkaoui mas agora é Ali Thabet -, que representa o Ocidente e que mostra imensa curiosidade pelos Shaolin. Mas para além dos intérpretes pode dizer-se que há outra grande estrela neste espectáculo.

Que é...?
O cenário. É extraordinário, e foi criado pelo artista plástico Antony Gormley, vencedor de um Prémio Turner.

E que tem de tão especial?
Gormley criou 21 caixas de madeira todas iguais, um pouco maiores que cada monge, que parecem banais mas quando manipuladas sugerem ambientes completamente diferentes. Num minuto são casas, noutro caixões, noutro ainda parecem pétalas de uma flor ou um conjunto de arranha-céus.

CCB, Praça do Império, Belém. Tel: 213 612 444. O espectáculo apresenta-se
sexta-feira e sábado, às 21h00. Bilhetes de €10 a €20.

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